28.02.2014Por um cinema universal – Entrevista com o diretor Calixto Hakim

Há pouco mais de 160 anos, a região Sul do Brasil recebeu imigrantes da Suíça, que na época passava por uma grave crise econômica. O destino foi a Colônia Dona Francisca (hoje Joinville, Santa Catarina), fundada por estes suíços, que depois se espalharam para outras cidades. O curitibano Calixto Hakim decidiu contar um pouco dessa história em filme: produziu o docudrama (mescla de ficção e documentário) Suíços Brasileiros – Uma História Esquecida, que estará em cartaz de 28 de fevereiro a 7 de março no Cine Guarani. Formado em cinema na Art Center College of Design, na Califórnia, ganhador de vários prêmios no Brasil e no mundo por seus curtas e médias-metragens que escreveu e dirigiu, Calixto conversou com o Guia Curitiba Apresenta sobre o filme, sobre o cinema em geral e ainda contou um pouco de como foi montar uma produção cinematográfica binacional.

Como foi a produção do filme?
O filme é uma coprodução Brasil/Suíça. Fiz o projeto através da Lei Rouanet e fui para a Suíça. Eles já conheciam a história da migração pra cá e estavam bastante interessados. Consegui através do parlamento suíço uma parte da verba. Outra parte veio do cantão de Schaffhausen, de onde veio a maioria dessas pessoas. Eles arcaram com os custos de toda a produção na Suíça, que eu consegui fazer em 2009. Voltei ao Brasil e comecei a mostrar o trailer e as partes filmadas lá, e aí foi muito mais fácil conseguir verba das empresas do Brasil, tendo algo já feito, um carimbo de qualidade de lá. Antes de ter essa parte feita eu batia nas portas e nada…

E como foi conseguir os primeiros contatos na Suíça?
O filme é baseado em uma pesquisa de um livro do Dilney Cunha, um historiador de Joinville. Esse livro foi editado também na Suíça. E Joinville – uma das cidades onde a gente gravou – tem um sistema de cidades irmãs com Schaffhausen. Através dessa parceria e do livro contatei o comitê das cidades irmãs e eles, já conhecendo e querendo contar a história, também ficaram felizes em sair do livro e fazer o filme para atingir mais público.

Você adotou como estratégia bater nas portas de empresas de origem suíça para angariar fundos?
O filme trata de um tema universal que é a imigração, mas como é focado na imigração suíça resolvi ir a empresas suíças que trabalham no Brasil – e tem muitas empresas grandes – e empresas brasileiras cujos donos são de origem suíça. Afinal, o filme era para contar a história deles!

E o filme já foi exibido lá?
Teve uma première, aberta para o público, e agora já foi exibido comercialmente. Também ficou uma semana em cartaz em Schaffhausen e agora começa a ir para outras cidades de lá, até pegando esse mote da Copa do Mundo, em que a Suíça é cabeça de chave. Muitos suíços não sabem que houve uma imigração grande para o Brasil, então eles querem aproveitar que estamos no ano da Copa para lançar o filme. Isso foi coincidência, porque comecei a fazer o filme em 2009.

E o formato do filme? Foi pensado em TV, cinema ou algum meio específico?
O filme foi pensado em televisão, tem 52 minutos, é um slot de uma hora de TV. Como eu venho da ficção, queria fazer um documentário misturado com ficção. É o que a gente chama de docudrama. É parte documentário e parte ficção, baseada em fatos que aconteceram. Tem um roteiro com personagens fictícios e a gente vai dando mote para a história. O formato entretém bastante o público, principalmente o que não está muito acostumado a assistir a documentário. Você vê partes com atores, com diálogos, bastante recriação de época, permeadas com depoimentos de historiadores e pesquisadores. Então o formato foi pensado para TV, mas o pessoal acabou querendo passar no cinema. Um filme que ganhou o Festival de Berlim ano passado foi um docudrama. O formato está entrando bastante no mercado e o pessoal está curtindo esse formato diferente.

E também é uma possibilidade de comercialização maior, não?
É uma possibilidade que viabiliza o lucro do produtor. Não lembro das estatísticas do último ano, mas menos de 10% dos lucros são de bilheteria. Então 90% dos filmes do Brasil vão para as salas e o produtor não ganha com a venda de ingresso (quem ganha são as salas e o distribuidor). E muita gente não está indo ao cinema, que concorre com muita coisa. Tem que ter hoje vários meios para divulgar o trabalho e atingir mais pessoas. Tem videoondemand, a TV, todos estão precisando deste conteúdo. As leis estão ajudando a ter mais programação local, com os canais a cabo tendo que passar filmes brasileiros. Se ficar só no cinema hoje em dia ninguém sobrevive, principalmente aqui no Brasil. A gente também teve uma procura grande de DVD, já vendemos mais de 700. Dá para comprar pelo site Morofilmes.com e nas exibições que tenho feito. Quem compra são os descendentes, que gostaram da história e querem mostrar para outros imigrantes, não necessariamente suíços.

Qual é a sua opinião sobre o momento atual da indústria cinematográfica do Brasil? Não falta fazer um cinema mais universal, como os argentinos?
O audiovisual– não só o cinema –brasileiro, no geral, não tem se limitado às salas de cinemas e tem crescido bastante. Mas o cinema brasileiro ainda é muito concentrado em São Paulo e Rio de Janeiro, que fazem 80% do cinema brasileiro. Isso está mudando aos poucos. Mas um dos problemas do cinema brasileiro é o fato de ser sempre rotulado como cinema brasileiro. O cinema tem que ser universal. A história pode se passar no Brasil, com profissionais brasileiros, mas tem que ser contada para todo o mundo. O cara lá na Dinamarca tem que se comover da mesma maneira, a empatia pelos personagens tem que ser a mesma no Rio ou em Oslo, porque o ser humano é o mesmo. O que falta no cinema brasileiro é um pouco de globalização. A gente já perde por falar português e tudo ainda é muito regional. Nossos roteiristas e cineastas têm que tentar fazer filmes mais universais, utilizando nossa cultura e nossos costumes, mas não rotulando como cinema brasileiro. Os argentinos conseguiram superar isso, o cinema deles chega no mundo inteiro – primeiro porque eles falam espanhol e segundo porque conseguem fazer roteiros muito mais universais, com temas que não ficam tão regionalizados.


Serviço:
Suíços Brasileiros: Uma História Esquecida
Data: de 28 de fevereiro a 7 de maço
Horário: 18h (de 3ª feira a domingo)
Classificação: 12 anos
Ingresso: R$12 e R$6
(saiba mais sobre o filme em www.suicosbrasileiros.com.br)

Autor: Imprensa/FCC

Fonte: Fundação Cultural de Curitiba

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